Dom Henrique Aparecido de Lima, bispo Diocesano de Dourados. - Crédito: Clara Medeiros / Dourados News
“Muitas vezes a pessoa passa a vida inteira lutando para ter uma casa, a vida inteira para pagar uma casa. Não é justo, você não vive. Quando você consegue a casa já está chegando ao final da vida e a gente não tem só casa para comprar. A gente não tem só casa para adquirir. A gente tem muitas outras coisas. Então, a casa parece que se tornou algo assim, tipo utópico, a moradia, uma casa, etc. Então a igreja vem buscando fazer repensar isso”, afirma Dom Henrique Aparecido de Lima, bispo Diocesano de Dourados.
O líder religioso da Igreja Católica na maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul, exemplifica como o acesso à moradia digna ainda é um dos principais desafios do país e, por isso, tema da Campanha da Fraternidade 2026, lançada pela CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) , que este ano aborda “Fraternidade e Moradia”.
Ele lembra que o debate não se limita às pessoas em situação de rua, mas à dificuldade de acesso à moradia de forma mais ampla, trazendo aspectos como casas em edificações precárias; falta de infraestrutura básica como asfalto e saneamento; distância de serviços essenciais como escolas, postos de saúde e transporte; e até mesmo o crescimento desordenado da cidade.
“As casas são muito caras, os aluguéis são muito caros, e muitos milhões de pessoas sem condição de pagar aluguel, pagar prestação de uma casa própria. Mesmo que venha a questão daquela moradia popular, mesmo assim, porque se a pessoa não tem um emprego, alguma coisa estabelecida, ela é financiada”, afirma o bispo, se referindo a taxas que moradores pagam ao serem sorteados em projetos habitacionais.
Ele acredita ainda que o aumento de profissionais autônomos trabalhando como MEIs (Microempreendedores Individuais), reduz o acesso ao crédito devido à falta de garantia de renda para que os bancos liberem quantias suficientes para investir em uma habitação.
“A igreja está buscando pensar, repensar isso, não só para nós da igreja, nós populares, mas todo o contexto social, econômico, político”, explica, lembrando que no fim todos precisam participar para que o Estado elabore e execute políticas públicas voltadas a esse segmento.
O bispo pontua ainda que quando não há cuidado para garantir acesso à habitação, o número de moradores de rua aumenta, justamente porque muitos não tem condições de custear um lugar digno para viver.
“Inclusive aqui em Dourados, está ficando assustador. Você sai à noite na praça, meu Deus, quanta gente na rua. De dia você não vê por causa da movimentação dos transeuntes, para lá e para cá, mas de repente quando a cidade para, que você vem aqui para o centro, você percebe a quantidade de pessoas que estão na rua”, afirma o líder religioso.
Dados do MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome) do Governo Federal, apontam para um aumento na quantidade de famílias em situação de rua em Dourados nos últimos dez anos. Em 2016, eram 12 cadastradas no CadÚnico (Cadastro Único), número que subiu para 96 em 2021 e atingiu 376 em janeiro deste ano.
Estão nesse quantitativo, aquelas famílias que vivem em extrema pobreza, utilizam ruas e áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, assim como unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória.
Ainda conforme dados do MDS, a cidade tem 5,2 mil famílias morando em residências de tijolos sem revestimento; 1,6 mil com paredes de madeira aparelhada e 697 de madeira aproveitada, ou seja, que seriam descartadas, entre outros.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a cidade tem cinco favelas e quase 2 mil pessoas morando nelas, muitas vezes em residências de estrutura precária ou localizadas em áreas de risco.
CAMPANHA
“A Campanha da Fraternidade entra para ajudar também nessa questão muitas vezes do social na Igreja e no mundo. Isso ajuda a pessoa a despertar para as realidades que estão aí, meio sofridas, com dificuldades ou com problemas, ou que não estão conseguindo ser alcançados objetivos dos cuidados, como a natureza, etc. E este ano ela vem trazendo algo muito importante que é a moradia”, pontua.
Ele lembra que a campanha coincide com a Quaresma, período de 40 dias que antecedem a páscoa e considerados de preparação espiritual para os católicos, com reflexão, oração, penitência, jejum, conversão e caridade.
“O objetivo prático, muitas vezes, que a campanha propõe é durante a Quaresma ter os encontros, os encontros atingem todos os lugares praticamente: casas, famílias. É fazer uma reflexão sobre isso. Essa reflexão ela vai culminar, com certeza, no âmbito político”, acredita, lembrando que é necessária uma consciência coletiva sobre a importância do acesso à moradia digna.
Em Dourados, o lançamento oficial da Campanha da Fraternidade será no domingo, dia 22, com missa na Catedral Imaculada Conceição, às 19h, presidida pelo bispo. Já as demais paróquias seguem calendário próprio.
Em âmbito nacional, foi lançada nesta quarta-feira, dia 18, em Brasília (DF), pela CNBB, entidade que criou a campanha que existe desde 1964 no país, único lugar do mundo onde é realizada pela Igreja Católica.
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